PARA O VALOR. DO RIO  –  “Quer uma cerveja, Dona Beth? Não? Prefere um vinho? Temos caipirinha também.” “Eu quero é um suco de caju”, respondeu Beth Carvalho, fazendo careta para o garçom do CT Boucherie. O bistrô de carnes comandado por Claude Troisgros fica na Lagoa, colado ao apartamento onde morava a cantora, que morreu nesta terça-feira, aos 72 anos, depois de dois meses internada no hospital Pró-Cardíaco. “Pois é, todo mundo acha que eu bebo pra caramba. É o preço que eu pago por ser madrinha de gente como Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz, Sombrinha e Almir Guineto”, disse a sambista, soltando uma gargalhada, nesta entrevista inédita.

Sofrendo com problemas na coluna desde 2011, acentuados nos últimos anos, Beth não fazia da aparente limitação física um problema. A bordo de seu “Betemóvel”, como ela própria batizou sua cadeira de rodas, tentou dar conta de sua agenda de shows. O último foi em outubro do ano passado, no Oktoberfest Rio. Durante toda a apresentação, ela esteve deitada numa cama.

Beth teve uma única filha, a também cantora Luana Carvalho, mãe de Mia. “Vejam que maravilha!”, disse a sambista, virando a tela do celular para que todos pudessem ver a foto da neta. “Somos grudados, uma família muito unida. A gente se ama”, afirmou. Ela passou a contar um pouco da história de sua irmã, Vânia Carvalho, que, aos 75 anos, havia gravado o segundo disco da carreira. O primeiro, lançado em 1978, parecia indicar uma trajetória parecida com a da irmã famosa — ambas têm o mesmo timbre de voz e a facilidade para cantar samba.

Como na família Carvalho tudo era permitido, a primogênita lançou o primeiro disco, depois “encerrou” a prematura carreira e foi fazer publicidade. “A pressão era mais de quem tinha ouvido o disco e gostado. A Vânia é craque”, elogiou Beth nesta entrevista. “Ela lançou um CD só de sambas-canções, que é uma maravilha. Quase 40 anos depois. Pra você ver que ela não tinha pressa nenhuma. Lá em casa a gente é assim: todo mundo só faz o que gosta, sem submeter a pressões externas. Herança de minha mãe”.

Maria Nair Santos, mãe de Beth e Vânia, contou a sambista, não era uma mulher de impor nenhuma de suas vontades às filhas. Elas eram livres para fazer suas escolhas. A própria mãe, funcionária da Casa da Moeda, era uma mulher à frente de sua época, sofisticada e independente, fã de Jean-Luc Godard e François Truffaut (1932-1984). Beth estudou balé durante parte da infância e juventude, mas poderia, se tivesse vontade, ter feito capoeira ou aula de violão, como de fato fez, anos depois, tornando-se até professora. 

Por influência materna, a adolescente Beth Carvalho sempre esteve mais próxima da modernidade do que da tradição. Ela cresceu vendo filmes da Nouvelle Vague e ouvindo Elizeth Cardoso, Sylvia Telles, Dolores Duran e Doris Monteiro, intérpretes da transição do samba-canção para a bossa nova. “O que não impediu que eu respeitasse também cantoras tradicionais, de igual talento, como Ângela Maria e Dalva de Oliveira, ambas maravilhosas. Mas por causa de minha mãe sempre acabei me ligando em tudo que representava de certa maneira o “novo”, que estava um passo à frente”.

O pai, João Francisco Leal de Carvalho, funcionário da alfândega também exerceu forte influência. Conhecido como “João das Guerrilhas”, militante fervoroso de Getúlio Vargas e de Leonel Brizola, simpatizante de Luís Carlos Prestes, sempre se ligou em política — e em música brasileira. Amigo de Silvio Caldas, foi quem colocou a filha mais nova para ouvir Elizeth Cardoso. Pessoalmente. “Ele vivia recebido artistas lá em casa. Uma vez, o Silvio levou a Elizeth. Eu sentada no sofá e ‘A Divina’ cantando pra família. Quando ela foi embora eu já estava decidida a ser cantora”, lembrou Beth.

No meio do caminho, houve o golpe de 1964. O pai, militante ligado ao Partido Comunista Brasileiro, acabou preso e demitido da alfândega. A família, que vivia com um certo conforto em Botafogo, teve que se virar. Por ironia da história, a perseguição política sofrida pelo pai empurrou ainda mais a filha mais nova para a música, que teve de ajudar nas contas dando aula de violão. “Eu tive que estudar música de uma forma ainda mais séria. A barra pesou. Meu pai virou massagista, a renda da família caiu, mas ninguém se desesperou não.”

O garçom interrompe a conversa para avisar Beth que o suco de caju não é feito na hora, e sim da polpa da fruta. “Serve meu filho. Pode mandar”, disse. A cantora contou que, mais uma vez, sua mãe teve uma participação decisiva na criação das filhas, não transformando a dificuldade econômica num martírio diário. Uma mulher sofisticada, muito culta, porém pouco consumista, pouco ligada a bens materiais. Quando o padrão de vida caiu, lembrou Beth, ninguém se desesperou. “Minha mãe era uma mulher de classe média, mas que tinha muitas amigas em Bangu, Realengo, Madureiras, bairros do subúrbio, adorava circular por todas as esferas sociais. A gente pegava o trem e passava tarde inteiras por lá”, afirmou Beth. “E eu era uma menina que adorava bossa nova, Nara Leão, essa coisa toda, mas que também teve contado com o samba na sua forma mais genuína. O Cacique de Ramos, por exemplo, mudou para sempre a minha vida, um centro de aprendizagem fundamental para a minha formação como cantora e sambista”.

De fato, é impossível dissociar a carreira da sambista Beth Carvalho, a intérprete de sucessos como “Vou Festejar” (Jorge Aragão, Dida e Neoci), “Coisinha do Pai” (Jorge Aragão e Almir Guineto), “Camarão que Dorme a Onda Leva” (Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz e Beto Sem Braço) de sua vivência no Cacique de Ramos — nome dado ao lendário bloco carnavalesco de Ramos, bairro do subúrbio do Rio, base da formação de outro conjunto notório da região: o Fundo de Quintal.

Formado por nomes como Almir Guineto, Sombrinha, Arlindos Cruz e Jorge Aragão, o Fundo de Quintal revolucionou o gênero ao usar instrumentos até pouco comuns em rodas de samba, como o banjo, o tantã e o repique de mão. Levada pela primeira para ouvir os bambas do Cacique, não pela mãe, mas por Alcir, amigo e jogador do Vasco, Beth, já uma cantora de sucesso, encantou-se imediatamente com o bloco e a banda. “O pessoal me estranhou um pouco. Eu chegava sempre num Puma conversível, um carro de luxo para época, cheia de joia. Carinha deve ter pensando: ‘O que essa madame está fazendo aqui’?” E, além de tudo, ela era abstêmia. “Os caras tomando todas e eu bebendo Coca-Cola. Colocava a latinha debaixo da mesa, para ninguém olhar torto pra mim.”

Ao assistir as rodas no Cacique de Ramos, Beth diz ter sentido o mesmo tipo de arrebatamento que sofrera ao ver pela primeira vez Clementina de Jesus cantando no espetáculo “Rosa de Ouro”, em 1965, dirigido por Hermínio Bello de Carvalho. A “madame” virou logo madrinha. Beth lançou todos os grandes compositores do Cacique e do Fundo Quintal, contribuindo para que nomes como Almir Guineto e Jorge Aragão saíssem do gueto.

Sua maior descoberta, porém, se deu pouco tempo depois, já nos anos 1980, também na quadra do bloco, quando ouviu pela primeira vez um jovem e magérrimo cantor, com um poder de divisão que lembrava os grandes nomes do samba sincopado. Um gênio em plena formação chamado Zeca Pagodinho. “Fiquei maluca com o Zeca. Fui correndo apresentá-lo à minha gravadora, a RCA, com a certeza de que tinha acabado de descobrir uma joia rara da música brasileira.”

Para a sua surpresa, Zeca foi recebido com certa frieza pelos diretores. Na época, vivia-se o auge do rock nacional. O samba, salvo algumas exceções (a própria Beth,  Alcione, Martinho da Vila), andava em baixa. Mas, mesmo assim, tratava-se de Zeca Pagodinho, um grande e raro talento, e que ainda não tinha disco gravado. “Eles ficaram olhando o Zeca, com aquele jeitão dele, aquela roupa, e decidiram não gravar nada”, recordou Beth. “Tempos depois, ele assinou com a RGE, uma gravadora menor que a RCA. O primeiro disco vendeu um milhão de cópias. Eles perderam o Zeca por puro preconceito.”

Até cantora achava que o samba, presente como gênero em quase todas as vertentes da música brasileira, continuava sofrendo discriminação por parte do establishment. “O samba sempre será associado ao ‘popular’ e a MPB, a algo mais chique, refinado. É algo enraizado em nossa cultura, não tem muito jeito, não”, disse ela. Beth sentiu pouco desse preconceito quando deixou de cantar bossa nova para se dedicar quase que exclusivamente a interpretar os grandes nomes do gênero, dos já consagrados, mas esquecidos, como Cartola e Nelson Cavaquinho, aos esquecidos e consagrados a partir das suas gravações, como Jorge Aragão e Zeca Pagodinho. “Fico feliz de ser chamada de ‘Madrinha’ pelo Zeca e por toda gente boa, mas honrada mesmo eu me senti quando percebi que tinha contribuído para melhor a vida dos meus ídolos.”

A transição do asfalto (bossa nova) para o morro (samba) foi feita naturalmente, sem traumas. Só foi vista com uma certa surpresa pela patota da bossa nova, que ela costumava frequentar, em início de carreira  Quando estourou interpretando “Andança”, de Danilo Caymmi, Paulinho Tapajós e Edmundo Souto, terceiro lugar no Festival Internacional da Canção de 1968 (atrás apenas de “Sabiá”, de Tom Jobim e Chico Buarque, e de “Pra Não Dizer que Não Falei das Flores”, de Geraldo Vandré), parte da crítica a apresentou como uma cantora de “MPB”. Ela rejeitou o rótulo e foi gravar sambistas, gênios esquecidos como Cartola e Nelson Cavaquinho.

“Não era o caminho que todos esperavam que eu seguisse, as gravadoras, a indústria, mas foi o que fez total sentido pra mim naquele momento. Eu não queria ser mais uma garotinha de Ipanema.”

Pode parecer estranho, sob o olhar de hoje, com Cartola e Nelson Cavaquinho reverenciados, transcendendo o gênero, sinônimo de qualidade quando o assunto é música brasileira, alguém afirmar que estava correndo risco aos gravá-los. Mas em plenos anos 1970, os dois enfrentavam um duro e longo período de ostracismo. Cartola, por exemplo, encarava o segundo período de esquecimento. Em 1956, 20 anos após estourar como compositor, gravado por Carmen Miranda e Silvio Caldas, o compositor da Mangueira levava carros em Ipanema até ser redescoberto pelo jornalista Sérgio Porto. Vinte anos depois, em 1976, foi a vez de Beth Carvalho trazer à tona a esquecida “As Rosas Não Falam”, gravada por ela com estrondoso sucesso. “Sabe o Cartola estava fazendo nessa época? Servindo cafezinho em repartição pública.”

Com Nelson Cavaquinho, a aproximação foi diferente. No começo dos anos 1970, ela o ouvia cantar, em troca de comida, em pés sujos frequentados por mendigos e prostitutas. Nunca teve coragem de abordá-lo. “Ele bebia, tinha medo que se tornasse agressivo se eu chegasse perto. Um dia, porém, tomei coragem. Ficamos amigos”, contou Beth. Ela saiu do encontro com uma joia em mãos, “Folha Secas”, um dos maiores sambas da história, escolhido pela cantora para ser o carro-chefe do seu primeiro disco dedicado ao gênero “Canto por Um Novo Dia” (1973). Só não esperava que a obra-prima fosse parar nas mãos de outra cantora, essa já consagrada: Elis Regina.

“O meu disco de samba foi produzido pelo Cesar Camargo Mariano, que mostrou ‘Folhas Secas’ para Elis [Regina], que decidiu também incluir no repertório do disco ‘Elis’, lançado no mesmo ano. Não me deu nenhuma satisfação por isso. Fiquei muito chateada, nunca mais falei com ela.”

Beth havia deixado de cantar bossa nova justamente por achar que o gênero era muito “alienado”, pouco politizado, limitando-se ao “amor, sorriso e a flor”. Não pegava bem para a filha do “João das Guerrilhas”. “Eu tinha verdadeira adoração, e ainda tenho, pela sonoridade da bossa nova. Mas o Brasil pegando fogo, em plena ditadura, e os caras falando do barquinho, do pato e da brisa?”, explicou. “Nem todo samba tinha letra de protesto, mas cantar samba em plena ditadura, feito por compositores negros, pobres,  marginalizados, já era uma forma de protestar.”

Beth foi uma defensora ferrenha dos governos petistas e sobretudo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva — foi vista diversas vezes em reuniões e comícios organizados pelo partido no Rio em apoio ao líder político, antes de sua prisão. Também fez questão de se colocar contra o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, posição que a fez comprar brigas com seus vizinhos no apartamento onde morava. “A minha vizinha de frente ficava batendo panela e olhando pra mim, com uma raiva nos olhos de dar medo, mas que a mim nunca incomodou”, disse.

Gentil, Beth cumprimentou todos os garçons, o gerente de casa, e partiu com o Betemóvel em direção ao seu prédio. Em cinco minutos, já estava no quarto andar, onde é possível ver, no hall que divide o apartamento do outro do andar, um imenso pôster de Che Guevara. “Está vendo porque eu sou tão amada por essas bandas?”, disse Beth.

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